Gabe na revista House MagDJ Gabe
Depois de conquistar o público do psy-trance com o Wrecked Machines, Gabe já é destaque ao apostar em novas sonoridades como DJ e produtor
Por João AnzolinO crescimento da música eletrônica em terras brasileiras não se mede apenas pela quantidade de DJs e produtores estrangeiros que visitam com cada vez mais frequência o país, ou pelo sucesso que clubs como o paulista D-Edge ou o catarinense Warung alcançaram em todo o planeta. Um dos principais fatores a serem avaliados para mensurar o tamanho do cenário da música eletrônica no Brasil é o crescente grupo de DJs e produtores brasileiros que podem ser considerados como verdadeiros embaixadores da eletrônica br
asileira pelo mundo afora, tamanho o sucesso de suas produções e a qualidade de suas apresentações.Se no passado o Brasil tinha que se contentar com poucas figuras fazendo sucesso em pistas estrangeiras, nos últimos anos este cenário vem mudando consideravelmente. O paulista Gui Boratto (capa da 3ª edição da House Mag) é, provavelmente, o principal nome brasileiro no atual time dos grandes produtores mundiais. Mais recentemente, outra figura até então conhecida no cenário de psytrance brasileiro vem se credenciando como produtor de primeira linha, e não apenas no campo do trance psicodélico. Trata-se de Gabriel Serrasqueiro, popularmente conhecido como Gabe.
O interesse de Gabriel pela música eletrônica começou no final dos anos 90, quando ele trabalhava em um cyber café situado na Galeria Ouro Fino, um dos principais redutos da cena eletrônica de São Paulo, cidade onde nasceu. O hoje DJ e produtor era guitarrista e vocalista de uma banda de punk-rock, e aos poucos foi se aproximando da música eletrônica, em uma época em que ainda não haviam as atuais distinções e segmentação musical. "Sempre escutei de tudo, de drum and bass até techno pesado. Gosto de música de qualidade, não importa o estilo que seja", diz Gabe.
Após começar a tocar com mais freqüência e comprometimento, foi à frente do projeto Wrecked Machines que Gabriel se tornou um dos maiores
nomes do psytrance mundial, carregando no currículo apresentações nos maiores festivais do gênero. Prova inequívoca de seu reconhecimento foi a sua presença no Top 100 da revista britânica DJ Mag em 2006, ano em que foi rankeado como o 55º melhor DJ do mundo. Para o próprio Gabe, o melhor de figurar na famosa (e polêmica) lista da DJ Mag foi a possibilidade de se apresentar para um público que até então não conhecia seu trabalho, e que somente após a publicação do ranking teve contato com seu som.Eclético e avesso aos inevitáveis rótulos que cercam o universo eletrônico, há cerca de dois anos Gabriel vem mostrando um lado de seu trabalho que até então era pouco conhecido: faixas e sets que fogem ao psytrance e que tendem mais às linhas minimalisticas e de techno. A mudança, que pode ser sentida em todo o meio do trance psicodélico de um mode geral, é encarada com naturalidade por Gabe, que festeja os novos ares: "Sempre gostei de sons mais diferentes, só que antes eles eram undergrounds demais para serem tocados em grandes festas. Hoje é um tipo de som que 'funciona', e eu só tenho a comemorar!".As primeiras produções de Gabe seguindo uma linha diferenciada daquela que lhe consagrou foram ao lado do também DJ e produtor de psytrance Marcelo Vor, sob o nome de Velkro. O sucesso do Velkro foi tão grande que as faixas de autoria do projeto já figuram entre as 50 músicas mais vendidas do portal de compras de mp3 Beatport. Na última edição do Creamfields portenho, em novembro do ano passado, um dos pontos altos do set do set do argentino Hernan Cattaneo foi o momento em que o remix de Velkro para a faixa "Keep On" (Beckers e Hatfield) foi tocado e neste ano nomes como Sasha e John Digweed incluíram faixas do projeto em suas apresentações durante a Winter Music Conference (Miami).
Entretanto, devido à dificuldade para conciliar as carreiras solo e em dupla, Gabe acredita que será difícil dar continuidade ao projeto nos mesmos moldes. Nada que preocupe os fãs do som do paulistano, já que a intenção, segundo ele é manter a mesma linha sonora em produções lançadas individualmente e no seu novo line, que será lançado este ano.2008, por sinal, tem tudo para ser um ano promissor para Gabriel: ele está trabalhando ao lado do produtor Dimitri Nakov em dois remixes para as faixas "Park it in the shade" e "Coma", ambas de autoria do inglês Sasha. No final de maio, no clube Clash, em Sâo Paulo, ele lança a nova versão de seu live. Para os fãs do sul do Brasil, o DJ e produtor manda um recado: "Conheço bem o público que frequenta as festas de psy no sul, mas neste meu novo live pretendo conhecer novas pessoas". Após a gig de lançamento do novo live, Gabe sai em turnê pelo Brasil, e certamente nos próximos meses o público do Sul vai poder prestigiar de perto o artista nos principais clubs da região.
----------------- PERGUNTAS -----------------------------------Você se notabilizou pelo seu trabalho na cena de psytrance, e no momento está partindo para novos desafios, investindo em produções em outros estilos. A que se deve esta mudança?Desde que comecei a me envolver com a música eletrônica, sempre tive muito contato com as sonoridades que hoje fazem muito sucesso, como essa onda de Minimal e Techno. Foi um som que sempre gostei e ouvi, mas que até pouco tempo atrás não faria sentido tocar. Com esse crescimento de BPMs mais baixas e sons mais diferentes, aproveitei para mostrar esse meu lado que pouca gente conhecia.Pode-se dizer que a cena psicodélica está cada vez mais interagindo com outros estilos, não?Sim, com certeza. No começo a música eletrônica era uma coisa só, não havia tantas distinções. Depois tudo foi se segmentando muito: psy, techno.... Cada um pro seu lado. Hoje as festas de psy, na minha opinião, tocam cada vez menos som realmente psicodélico.Você produz uma imensa quantidade de faixas, que, logicamente, exigem muito tempo em estúdio. Como é conciliar a produção com as gigs, e como você encara a produção musical?É indispensável passar muito tempo em estúdio. Hoje as músicas têm um tempo de "duração" relativamente pequeno. Elas são lançadas e logo são substituídas por outraslançadas depois, então eu me dedico ao máximo para ficar em estúdio. Sou casado, mas sinceramente minha esposa reclama mais do tempo que eu fico no estúdio do que do tempo que fico fora de casa nas minhas gigs (risos).
Qual DJ ou produtor que você acha que possui um trabalho que se matém atualizado ao longo do tempo?
É difícil mencionar um, mas um cara que sempre me surpreende é o Sander Van Doorn. Gosto muito da linha dele, uma espécie de tech-trance, similar à linha que eu sigo. É um produtor impressionante.
Quais ferramentas que você utiliza nas suas apresentações?
Adoro tecnologia e sempre estou em busca de coisas novas para meu estúdio. Nos meus DJ sets utilizo o Traktor e no live uso o Ableton.
FONTE: Revista House Mag - 6º Edição (Maio / Junho 2008)